Colóquio internacional

Dé-me(s)-tissages

Pós-colonialidade, corpos e subjetividades situadas

 13 e 14 Outubro 2026

Submissão de resumos

A chamada para trabalhos está agora encerrada.


O colóquio internacional Dé-me(s)-tissages interroga a maneira como os legados coloniais se depositam nos corpos, afetam as emoções e configuram as sensibilidades, com efeitos sobre a saúde mental e as formas de pertencimento. Ao articular os estudos pós-coloniais, decoloniais, feministas e queer com a psicologia, a psicanálise e a sociologia, o projeto adota uma abordagem interseccional nas dimensões de raça, gênero, classe e sexualidade na vivência subjetiva e na experiência encarnada (Garrau & Provost, 2022), isto é, naquilo que se sente, se habita e se transmite.

As pesquisas pós-coloniais evidenciam o impacto da colonialidade sobre as estruturas sociais e epistêmicas. Nossa contribuição consiste em articular essas análises com o corpo vivido, os afetos e as vulnerabilidades, e em pensar os efeitos dos legados coloniais sobre o psiquismo. Ali onde a literatura separa o político da vida psíquica, propomos um espaço de reflexão para interrogar como desejos, medos, vergonhas e fantasias são historicamente produzidos. Com efeito, eles são atravessados por normas como a branquitude, a cis-heteronormatividade e as relações de poder e dominação que impactam a organização das sociedades.

No rastro dos estudos pós-coloniais, Fanon (1952; 1961), Saïd (1978) e, posteriormente, Spivak (1999) propuseram uma análise das relações coloniais de dominação, mostrando que elas se mantêm após as descolonizações nas representações, nos regimes de saber e nas próprias categorias a partir das quais se constrói a figura do "Outro". Seus trabalhos oferecem uma crítica à invisibilização de determinadas vozes e à fabricação dos imaginários coloniais.

No campo decolonial, Lugones (2003; 2008) e Quijano (2008) mostram que a colonialidade ultrapassa a sequência histórica da colonização. Ela designa um modelo global de poder que prossegue após as independências. Essa persistência se expressa, particularmente, por meio de uma ordem epistêmica que hierarquiza os saberes, define quem pode produzir conhecimento legítimo e impõe grades de leitura (modernidade, progresso, racionalidade) apresentadas como universais, embora sejam situadas e estruturadas por relações de poder. A noção de branquitude permite apreender um dos efeitos centrais dessa ordem epistêmica, entendida não como uma simples categoria "racial", mas como uma evidência não dita que define o humano legítimo e o regime de valores associado à modernidade.

As epistemologias africanas complementam essas críticas ao eurocentrismo (Mudimbe, 1988; Hountondji, 1994), em torno das representações sobre a África (Mudimbe, 1988), da valorização de saberes "autóctones" (Hountondji, 1994; Mbembe, 2001) ou das noções de pós-colônia e necropolítica (Mbembe, 2001).

As abordagens feministas negras e interseccionais (Davis, 1981; Crenshaw, 1989/2013; Bilge, 2009) entram em diálogo com os feminismos decoloniais (Espinosa Miñoso, 2016; Curiel, 2013; Falquet, 2019). Em conjunto, permitem pensar a imbricação de raça, gênero, classe e sexualidade, partindo da posição a partir da qual se fala, o lugar de fala (Ribeiro, 2017), e dos saberes situados (Haraway, 1988). Também tornam mais visíveis as experiências e as subjetividades das pessoas concernidas (Kilomba, 2008).

No plano clínico, os primeiros trabalhos dos movimentos anticoloniais, entre eles os de Frantz Fanon (1952; 1961), haviam chamado à consideração dos elementos sócio-históricos nos sofrimentos psíquicos. Santos Souza (1983) coloca no centro a experiência íntima da racialização: não apenas como violência social, mas como trabalho psíquico imposto ao sujeito. Por sua vez, Ayouch (2017) insiste na articulação do psíquico e do político nos processos de subjetivação. O psiquismo não é um "dentro" separado; ele se constitui nas relações de poder (racismo, decolonialidade, normas de gênero e sexualidade).

Nessa perspectiva, as relações sociais contemporâneas, moldadas pelo legado do poder colonial, organizam-se segundo uma lógica de pigmentocracia (Urrea-Giraldo & Posso Quinceno, 2015; Viveros Vigoya, 2008), entendida como um sistema de hierarquização que distribui de maneira diferencial o acesso aos diferentes capitais — econômico, social, sexual e cultural — em função do fenótipo, da identidade de gênero e da posição de classe. Essa dinâmica se inscreve nas subjetividades e informa as próprias modalidades do desejo, dos afetos e das experiências corporais, abrindo, assim, para uma abordagem situada do sensível que evidencia o caráter fundamentalmente relacional — e historicamente situado — não apenas da "raça" e do gênero, mas do conjunto das relações de dominação.

Ao reunir essas perspectivas teóricas, clínicas e empíricas, este colóquio propõe explorar a colonialidade não apenas como estrutura histórico-política, mas como experiência encarnada e subjetiva. Ele abrirá um espaço de diálogo interdisciplinar para pensar a experiência psíquica, as formas de pertencimento e os processos de subjetivação em sua espessura relacional e situada. Ao entrecruzar tecer e destecer, trata-se de delinear caminhos críticos e criativos e de formular novas questões.

Na França, os trabalhos que se referem às epistemologias decoloniais e pós-coloniais em Psicologia são pouco numerosos e permanecem à margem; este colóquio constitui um convite, no interior do espaço universitário francês, para reunir pesquisadoras e pesquisadores provenientes de diferentes pertencimentos disciplinares e geográficos. O cerne desta iniciativa é refletir conjuntamente sobre essas questões que nos inquietam e nutrir-nos coletivamente, a fim de oferecer uma vertente crítica e um olhar novo ali onde isso ainda tem dificuldade de emergir e de ser ouvido.

Como habitar de outro modo os vestígios coloniais e imaginar novas modalidades de produção de saber, de cuidado e de vínculos mais justos para o/a indivíduo/a e sua história? Quais teorias permitem operar uma descolonização dos saberes para desfazer as construções ideológicas herdadas da época colonial? Como elas escapam à homogeneização atribuída por meio de uma categoria discriminada e naturalizada como outro? Quais palavras não ditas, até mesmo não simbolizadas, quais acontecimentos passados vêm marcar inconscientemente nossos corpos e nossas subjetividades?

Tendo em vista um projeto de publicação posterior, estamos abert·e·s a propostas diversas e interdisciplinares. Vocês podem se inspirar nos eixos do colóquio abaixo:


Eixo 1: Relações de dominação: espaços íntimos / espaços públicos


Eixo 2: Gêneros e sexualidades: questões e espaços queer


Eixo 3: Corpo: questões de herança




Referências bibliográficas:

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Anzaldúa, G. (1987). Borderlands/La frontera: The new mestiza. Capitán Swing Libros.

Anzaldúa, G., & Moraga, C. (Eds.). (2002/1981). This bridge called my back: Writings by radical women of color (3th ed.). Third Woman Press.

Ayouch, T. (2017). Genre, classe, « race » et subalternité : pour une psychanalyse mineure. Dans L. Croix et G. Pommier, Pour un regard neuf de la psychanalyse sur le genre et les parentalités (pp. 171-203). Érès.

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Santos Souza, N. (1990 [1983]). Tornar-se negro: As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Graal.

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Urrea-Giraldo, F., & Posso Quinceno, J. (2015). Sexualidades, identidades y racialización en Colombia. Bogotá, Colombia: Universidad del Valle.

Viveros Vigoya, M. (2008). La sexualización de la raza y la racialización de la sexualidad en el contexto latinoamericano. Bogotá, Colombia: Universidad Nacional de Colombia.

Wayar, M. (2021). Furia travesti. Diccionario de la T a la T. Editorial Paidós.


Propostas esperadas:

Convidamos pesquisadorxs e doutorandxs a submeterem suas propostas de comunicação até o dia 02/04/2026, através do e-mail:

de.mes.tissages@gmail.com


As propostas devem ser enviadas em um único e-mail, na forma de dois arquivos distintos:

1. Um arquivo anonimizado (formato PDF)
Este arquivo deve conter apenas o resumo da proposta, sem nenhuma informação que permita identificar o(a) autor(a). Ele deve incluir:

  • O título da comunicação;

  • O eixo no qual a proposta se insere;
  • Um resumo de no máximo 500 palavras que apresente: o objeto, a articulação com a literatura, a problemática, a metodologia e os principais resultados;

  • O formato desejado: comunicação oral ou comunicação em formato pôster;

  • Cinco palavras-chave;

Este arquivo deve ser salvo em formato PDF e intitulado com as palavras-chave do título da sua proposta.


2. Um arquivo de identificação (formato PDF)

  • O título da comunicação;

  • O nome da/do autor·a;

  • As afiliações institucionais;

  • Uma breve nota bio-bibliográfica;

  • Sobrenome, nome, endereço de e-mail para contato.

Este arquivo deve ser salvo em formato PDF e intitulado: SOBRENOME-nome-número do eixo.pdf.


A revisão cega será realizada pelo comitê organizador e científico. Os resultados serão comunicados nas semanas seguintes.

Por favor, indique em seu e-mail se você precisa de visto.


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